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Vida noturna Ary Barroso
Pergunto: Há vida noturna no Rio de Janeiro? Se vida noturna é freqüentar os mesmos bares; correr os mesmos restaurantes; ver as mesmas caras; ouvir os mesmos cantores com as mesmas músicas; assistir os mesmos "shows"; discutir os mesmos assuntos; - se vida noturna é isso, a vida noturna carioca é formidável. E conservadora: não muda nunca. Entra ano, sai ano, é a mesma. De vez em quando aparece por aí um "Lido", uma Amalia Rodrigues, um Silvio Caldas ou uma Elizete Cardoso. Passam depressa e tudo retorna à tranqüilidade clássica. Os bares são semelhantes. As variações são mínimas. Tudo escurinho. Já se sabe que o amor adora a meia luz. Um pianista. Uma cantora. O "barman". A dose raquítica de uísque. O preço gordíssimo. Aves noturnas, tresnoitadas. Vazio, o bar parece corredor de Santa Casa. Cheio, pouca diferença tem de um mercado de peixe: gritaria. O carioca não sabe conversar baixinho. E a fumaceira? Os olhos se nos ardem até às lágrimas. E o freguês chatíssimo que nos abraça vigorosamente oito vezes e conta a mesma estória, quatro? E o chofer que só atende a clientes "para a zona norte"? E a mulher que nos vem vender flores de papel de seda? Vida noturna... O Rio tem vida noturna... |
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