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Tão longe de ti,... (s/ título) Ary Barroso
Tão longe de ti, porém tão perto no meu pensamento, que não me deixa um minuto sequer esquecer a tua figurinha esbelta de uma rainha cheia de encantos.
A Bahia, meu bem, é uma bela cidade. Um clima muito bom, cheio de encantos novos, com suas praias selvagens e suas montanhas bordadas de coqueiros. Os baianos são muito cordiais, hospitaleiros e sem vaidades tolas. Fizemos e continuamos a fazer muito sucesso. Tenho sido cumulado de gentilezas. Descobriram que sou quartanista de Direito e não se cansam de me tecer os mais encomiásticos elogios, chegando mesmo a me dar o apelido de "pianista infernal". Já não há, meu bem, quem não me conheça nesta cidade. Os rapazes da alta roda social não me deixam. Só ando de automóvel de um lado para outro. Toco em uma casa, toco em outra, de forma que é um céu aberto. E eu era para estar muito satisfeito, completamente contente.
E no entanto tal não se dá. Entre tantos confortos e tanta consideração, sinto-me sozinho, vazio, sem entusiasmo, sem graça. Não suporto a vida, Yvonne, sem ti ao meu lado. És a minha companheira indispensável. Quantas noites eu, sozinho em casa, fico, da janela do meu quarto, olhando para uma mesma estrela, invejando-a, porque sei que ela está te vendo e eu não!
Saudade, eu a tenho sentido amargamente. Saudade de tua voz; saudade de teus olhinhos vivos, que são para mim o meu único entusiasmo; saudade de teus beijos, Yvonninha, de teus beijos santos que me fazem transbordar o coração de amor e de alegria.
Sei que entre nós está um mar imenso que atravessei em dois dias e uma noite; porém não há distância para o pensamento e, como já disse, é em pensamento que te estou adorando, minha querida.
Ficarei aqui até o Carnaval, irei portanto a tempo de prestar meus exames, que têm de sair custe o que custar. O dinheiro do piano mandarei diretamente ao Banco Sul-Americano no dia 17. O dinheiro que aqui estou ganhando me permite tirar líquido 1:000$000 (um conto de réis) com o que pagarei a Escola e etc.
A primeira coisa que fiz quando aqui cheguei foi visitar a Igreja do Senhor do Bonfim; fiquei abismado de ver tanto milagre praticado por ele. Mais de duzentas muletas de paralíticos que se curaram lá; uma infinidade de retratos com declarações das pessoas que foram beneficiadas pelo Senhor do Bonfim. Uma coisa formidável. Fiz ali uma fervorosa oração pela nossa felicidade e pelo meu futuro. Saí dali com o coração alegre de ter podido cumprir com esta obrigação. Troquei lá estas fitazinlsas que te mando. São bentas e milagrosas. Aqui chamamnas de "medidas do Senhor do Bonfim". Servem para um caso de moléstia e para serem atadas às cabeceiras da cama. São de um poder extraordinário.
Bom, meu bem, vou terminar. São 4 horas da tarde de quinta-feira, 9 de janeiro de 1929.
Estou sozinho em casa, de pijama e chinelos; está fazendo um calor egular, mas, como meu quarto dá para o mar, não estou sentindo, muito. Já fizeste aqueles dois vestidos? Ficaram bonitos?
Adeus, queridinha. Beijo-te com toda a saudade que sinto e com todo o amor de que sou capaz.
Pensão Victória - Rua Victória. 17 - S. Salvador - Bahia.
Carta a noiva Yvonne |
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